Breaking

Tudo é Vibe: A Pequena Tranceira

Tudo é Vibe / 18/09/2014

Tudo é Vibe: Até que a grama vire lama!

Eu sempre gostei do mar. E ainda gosto. Mas hoje descobri uma coisa paradoxal. A imensidão de água pode representar algo tanto grandioso e lindo quanto sufocante e sombrio.

Descobri isso hoje porque finalmente consegui encontrar um filme infantil que eu gostava na infância e queria muito mostrar pra minha filha, porque se trata de uma história de princesas (personagens que ela tanto ama). A música, do filme “Ariel, a pequena sereia”, diz assim:

Eu quero estar onde o povo está
Eu quero ver um homem dançando
(…)
Com barbatanas não se vai longe
Tem que ter pernas pra ir andando
(…)
Tudo eu faria, eu só queria
Ser desse mundo
(…)
Quero saber, quero morar
Naquele mundo cheio de ar
Quero viver, não quero ser
Mais deste mar.

Ao rever o vídeo e cantar a letra que eu não sabia que ainda estava na minha lembrança, lágrimas me vieram aos olhos tamanha a identificação que senti naquele momento com a letra da música, comparando-a com a minha vida atual e seus dilemas.

Uma sereia que não quer mais viver no mar. Quer ser humana e ter pernas pra dançar. Ela se sente sufocada naquela imensidão de água. Não consegue mais respirar.

Pra pequena sereia aqui (esta que vos fala) a paixão pelo príncipe representa na verdade a paixão por um ideal. Um ideal que pressupõe uma certa ruptura com o mundo onde ela está inserida. Romper com a sociedade que impõe regras hipócritas predeterminadas por alguém antes mesmo de ela nascer e nas quais ela não se encaixa. Um mundo onde há cobranças de todas as ordens, disputas por poder econômico, desamor e abandono, discriminação e ódio. E repressão. Muita repressão. Um mundo onde você não pode ser você mesmo, sob pena de ser rotulado como anormal ou louco.

Os pés que a sereia deseja representam a sua verdadeira essência. Pés que pisem na terra. E que dancem. Dancem sem parar. Até que grama vire lama. Pés pra dançar…!

A “minha” pequena sereia encontra na dança um instrumento pra “transcender” tudo aquilo com o que ela não se encaixa, encontrando, mesmo que apenas pelo tempo de duração da música, o seu lugar no mundo.

Enquanto a música toca, ela alcança um estado de alma inatingível por qualquer outra forma conhecida. Ela se eleva. Ela flutua. Ela entra em contato com o seu verdadeiro universo.

Nesse universo não há regras hipócritas.
Lá existe PAZ. Não há disputas porque o ser e o sentir são suficientes para que cada um atinja a felicidade interior.

Lá existe AMOR. Todos se amam livremente, sem cobranças de qualquer natureza.

Lá existe UNIÃO. Todos são irmãos e ajudar o próximo é um valor em si mesmo, natural e gratuito.

Lá existe RESPEITO. Há irmãos diferentes entre si, mas essa diversidade não é motivo de segregação, preconceito, discriminação ou qualquer outro sentimento negativo.

Lá só existe positividade. Energia positiva. Boas vibrações. Good vibes. Lá, a pequena sereia respira.

E vocês sabem como se chama a música que tem o poder de transcender? Não por acaso, ela se chama “Trance”.

Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina – por puro desconhecimento -, “Trance” é o nome que se dá a algo que é mais do que um gênero de música eletrônica.

No meu modesto entendimento (para aqueles que desejam um conceito “técnico”), trata-se de uma melodia baseada na repetição harmônica de sons que tem o poder de elevar a consciência a estados transcendentais que possibilitam ao individuo identificar manifestações ocultas da mente (o que você também pode chamar de psicodelia!).

Mas eu prefiro o meu conceito cultural: o Trance é uma representação moderna de contracultura, inspirada na mistura dos ideais do movimento hippie dos anos 60 e de antigos rituais. Um movimento que visa romper com os valores negativos impostos atualmente pela cultura vigente, baseados no poder econômico e em regras sociais discriminatórias e segregadoras, dando lugar ao cultivo de valores como a paz, o amor, a união e o respeito (consagrados na sigla P.L.U.R., do inglês, Peace, Love, Unit, Respect). Isso se dá através da música, da arte e da dança, como forma de atingir um estado de consciência elevado, que coloca o ser em comunhão com a natureza e com o cosmos.

Eu descobri o Trance há pouco tempo, mas fui tomada pela sua energia. Não tenho quase nenhum conhecimento de música eletrônica e recém comecei a frequentar festivais “roots” como se costuma dizer no meio. Mas eu acho que não é preciso nada disso pra ser um Trancer. Porque o Trance é um ideal em si mesmo. Basta senti-lo. E de preferência compartilhá-lo, como eu estou fazendo agora.

Se todos nós conseguíssemos transcender a negatividade que o mundo de hoje nos impõe, cultivando os valores verdadeiramente ligados à essência do Trance (Paz, Amor, União e Respeito), nossas vidas se aproximariam do universo ideal, que, infelizmente, hoje ainda é apenas um universo paralelo…

Talvez o que nós amantes da música eletrônica estejamos fazendo nas nossas festas RAVES que duram a noite toda e o dia inteiro (as quais ao contrário do que muitos pensam não são apenas antros de drogas e excessos) seja apenas buscar atingir, mesmo que por algumas horas, um contato com esse verdadeiro universo. Isso porque, nesses lugares (sempre ao ar livre e em contato com a natureza) há uma atmosfera, uma energia única que consegue envolver todos nesse ideal. O ideal do P.L.U.R. Basta abrir a mente pra senti-lo, seja qual for a forma que você escolhe pra fazer isso… Os excessos não são incentivados, sequer tolerados por aqueles que cultivam a verdadeira essência do Trance. Ao contrário, ali se celebra a VIDA.

Evidentemente que como todo movimento, o Trance traz consigo a caricatura daquilo que ele representa não só através da música, mas das mais diversas formas de expressão, como modos de se vestir, de usar os cabelos, tatuar o corpo, falar, se comportar perante o planeta e os demais seres do universo. Alguns de nós fazemos todas ou algumas dessas coisas apenas para nos expressar. E no mundo Trance não há repressão àquilo que não faz mal ao outro ou a você mesmo.

Mas, pra mim, se a pessoa não curte música eletrônica e não estiver a fim de dançar por horas a fio, se vestir como um hippie, fazer dreads nos cabelos, tatuar Ganesh nas costas, ser vegano e responder a tudo que ouve com a palavra “gratidão”, não precisa. Basta cultivar em seu coração os valores que este movimento valoriza e divulga. Com isso o mundo já seria bem melhor. Esse é mundo onde eu desejo que a minha filha, a minha pequena sereia, cresça e seja feliz.

Ou seja, trancer ou não, apenas transcenda!

P.L.U.R.! ॐ

Foto: Murilo Ganesh


Tags:








Post anterior

Knife Party revela a tracklist de Abandon Ship

Próximo Post

Entrevista: Paniek





Também recomendamos


Mais Histórias

Knife Party revela a tracklist de Abandon Ship

O LP terá 12 músicas e lançará no final de outubro O tão aguardado álbum de estréia da dupla formada por Rob Swire...

18/09/2014